Um mundo sem regras, onde cada um pode falar o que quiser, mesmo que isso signifique divulgar pensamentos politicamente incorretos, discursos de ódio ou teorias sem o menor compromisso com a verdade factual. Para alguns, o paraíso da liberdade de expressão absoluta. Para outros, um pesadelo.
Em A Máquina do Caos - Como as Redes Sociais Reprogramaram Nossa Mente e Nosso Mundo, o jornalista Max Fisher embasa de forma convincente a teoria do que plataformas como YouTube, Facebook e X (antigo Twitter) são a materialização da Caixa de Pandora. Se na mitologia grega o objeto era o local onde repousavam os piores males que a humanidade pode enfrentar - como o ódio, a guerra e a inveja -, no século XXI essa caixa é aberta muitas vezes por dia com apenas alguns cliques, e carregada nos nossos bolsos a todo momento.
Fisher, repórter do New York Times e vencedor de um prêmio Pulitzer, o mais importante do jornalismo, é um estudioso do efeito nocivo das redes sociais. Seu livro traça uma cadeia de eventos que começa com o crescimento do Vale do Silício, ainda no final dos anos 1990, e vai até a invasão do Capitólio por apoiadores de Donald Trump, em janeiro de 2021. Em comum nas duas pontas do linho do tempo há um desprezo pelas autoridades oficiais, uma visão deturpada de liberdade, além de uma grave falta de habilidade para lidar com críticas e rejeições.
Com uma coleção de dados, pesquisas e depoimentos de ex-profissionais das plataformas, o autor explica a maneira como as redes sociais alcançaram pontos sensíveis do nosso psicológico. Muitas delas são ligadas ao próprio surgimento do homo sapiens, como a dependência da sensação de pertencimento e o medo diante da ameça de ser dominado por uma tribo diferente daquela em que estamos inseridos.
As plataformas logo perceberam que discursos exaltados geram engajamento, e começaram a recompensar esse tipo de conteúdo ampliando sua visibilidade. Nesse sentido, o algoritmo de recomendação é o grande truque, gerando o que o livro chama de “tocas de coelho”, numa referência à história da Alice no País das Maravilhas.
Nas “tocas de coelho”, uma mãe procurando informações no YouTube sobre vacinas para seus filhos vê um vídeo de alguém vociferando contra campanhas de imunização. Se ela for até o final, provavelmente será direcionada para outro canal negacionista. De lá, para outro canal com alguma teoria da conspiração. Dali, provavelmente para um conteúdo de extrema direita. A exposição a esse conteúdo vai acostumando o espectador a conceitos antes impensáveis, agora normalizadas.
No mundo retratado em A Máquina do Caos não há mais a figura dos “gatekeepers”, ou seja, as instituições/indivíduos que tutelavam quem tinha ou não autoridade para falar sobre determinado assunto. É a liberdade de expressão no estilo “um dispositivo na mão e uma ideia na cabeça” que tanto sonhavam os pais fundadores do Vale do Silício e que, diga-se de passagem, rende mais lucros conforme as horas conectadas aumentam.
Fisher passou por países como Sri Lanka, Mianmar, Alemanha e Brasil para dar exemplos de como a lente pela qual as redes sociais enquadram o mundo já contaminou a realidade. E mais: quando o discurso do campo virtual se choca com o funcionamento real das coisas o resultado costuma ser trágico.

