Dia desses, em uma festa de família, parei para jogar conversa fora com uma criança de quatro anos. Os papos de adulto já estavam me cansando e fiquei observando, admirada, aquela criatura pequena, no alto de seus quatro anos, vivendo alguma história mirabolante em sua imaginação enquanto erguia um boneco do Homem-Aranha no ar.
Naquele momento, tive certeza de que seus pensamentos eram mais tranquilos e divertidos que os nossos - adultos preocupados com o trabalho do dia seguinte e todos os outros pepinos dessa coisa louca que é a vida. E essa fração de momento me fez lembrar do querido livro que dá título a esse texto, que, sempre que posso, resgato da minha estante.
Nu, de Botas, do escritor e roteirista Antonio Prata é um livro recheado de crônicas que retomam a infância do autor. Carregadas de humor e daquele olhar encantado de uma criança que se espanta e conhece o mundo pouco a pouco, as histórias são memórias da sua casa, amigos da vila, viagens de férias, divórcio dos pais, primeira paixão, primeira desilusão e outros causos que, com a escrita singular e engraçada de Prata, nos arrancam boas risadas – gargalhadas, mesmo.
E, por mais que as histórias sejam particulares da infância do autor, é quase impossível não ter quela sensação de nostalgia ao ler sobre suas brincadeiras e pensamentos típicos da vida de uma criança. Quando a nossa maior preocupação do dia era chegar em casa após a aula, almoçar uma comida gostosa, se “aboletar no sofá” e passar a tarde inteira assistindo aquele programa favorito na televisão. Quando a vida ainda era “bolinho”.
Pois é...Mas, para nós, adultos, fadados às obrigações diárias, não nos restam mais brechas para “ao primeiro raio de sol, virar de um lado pro outro na cama, testando o corpo, nas esperança de encontrar, misturada às brumas do sono, uma pontinha de febre, um começo de gripe, qualquer mal-estar que nos permita pronunciar, com um langor calculado e aflito: Ai, tô me sentindo mal”.
Não temos mais o tempo de nos agarrar ao número trinta e seis e meio do termômetro, naquela quase febre, para matar a aula. Mas, podemos ler livros que nos trazem a sensação reconfortante dessa época. E em Nu, de Botas, essa sensação após cada crônica se dá graças ao olhar delicado do autor que, ao invés de contar suas histórias através da lente adulta, incorpora o ponto de vista de uma criança, deixando tudo ainda mais legal.
Histórias leves como essa podem ser uma boa porta de entrada para inserir a leitura no seu dia a dia, além de ser um belo início para embarcar na literatura de um dos cronistas mais emblemáticos da atualidade.

