Nu, de Botas
Antonio Prata, 2013
As memórias de infância do autor servem para resgatar a criança que todos nós carregamos dentro da gente, mesmo quando ela fica meio esquecida diante das responsabilidades da vida adulta.

Por Júlia Rugai

Publicado em 16 de agosto de 2024 às 13:25

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Dia desses, em uma festa de família, parei para jogar conversa fora com uma criança de quatro anos. Os papos de adulto já estavam me cansando e fiquei observando, admirada, aquela criatura pequena, no alto de seus quatro anos, vivendo alguma história mirabolante em sua imaginação enquanto erguia um boneco do Homem-Aranha no ar.

Naquele momento, tive certeza de que seus pensamentos eram mais tranquilos e divertidos que os nossos - adultos preocupados com o trabalho do dia seguinte e todos os outros pepinos dessa coisa louca que é a vida. E essa fração de momento me fez lembrar do querido livro que dá título a esse texto, que, sempre que posso, resgato da minha estante.

Nu, de Botas, do escritor e roteirista Antonio Prata é um livro recheado de crônicas que retomam a infância do autor. Carregadas de humor e daquele olhar encantado de uma criança que se espanta e conhece o mundo pouco a pouco, as histórias são memórias da sua casa, amigos da vila, viagens de férias, divórcio dos pais, primeira paixão, primeira desilusão e outros causos que, com a escrita singular e engraçada de Prata, nos arrancam boas risadas – gargalhadas, mesmo.

E, por mais que as histórias sejam particulares da infância do autor, é quase impossível não ter quela sensação de nostalgia ao ler sobre suas brincadeiras e pensamentos típicos da vida de uma criança. Quando a nossa maior preocupação do dia era chegar em casa após a aula, almoçar uma comida gostosa, se “aboletar no sofá” e passar a tarde inteira assistindo aquele programa favorito na televisão. Quando a vida ainda era “bolinho”.

Pois é...Mas, para nós, adultos, fadados às obrigações diárias, não nos restam mais brechas para “ao primeiro raio de sol, virar de um lado pro outro na cama, testando o corpo, nas esperança de encontrar, misturada às brumas do sono, uma pontinha de febre, um começo de gripe, qualquer mal-estar que nos permita pronunciar, com um langor calculado e aflito: Ai, tô me sentindo mal”.

Não temos mais o tempo de nos agarrar ao número trinta e seis e meio do termômetro, naquela quase febre, para matar a aula. Mas, podemos ler livros que nos trazem a sensação reconfortante dessa época. E em Nu, de Botas, essa sensação após cada crônica se dá graças ao olhar delicado do autor que, ao invés de contar suas histórias através da lente adulta, incorpora o ponto de vista de uma criança, deixando tudo ainda mais legal.

Histórias leves como essa podem ser uma boa porta de entrada para inserir a leitura no seu dia a dia, além de ser um belo início para embarcar na literatura de um dos cronistas mais emblemáticos da atualidade.

1 LIVRO, 1 DISCO, 1 FILME que dialogam com Nu, de Botas

O Fazedor de Velhos, Rodrigo Lacerda (2017)
Seria esse um livro complementar ao “Nu, de Botas”? Ao final do apanhado de histórias de Antonio Prata, entramos em contato com a criança do início do livro entrando nas primeiras cenas da adolescência. Já em “O Fazedor de Velhos”, do escritor Rodrigo Lacerda, perdemos um pouco do encanto da criança e passamos a conhecer os anseios e vontades de Pedro, personagem principal, da adolescência até sua vida adulta.
Brasil, João Gilberto (1981)
Dentre tantas memórias, em uma das crônicas de “Nu, de Botas”, Prata se recorda de sua mãe estar escutando um LP de músicas de João Gilberto. Embora não traga o título preciso do álbum, Brasil é um dos discos mais emblemáticos do compositor e conta com canções em parceria com Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia.
Curtindo a Vida Adoidado, John Hughes (1986)
Um clássico dos filmes de adolescente, "Curtindo a Vida Adoidado" conta a história do jovem Ferris Bueller. A fim de aproveitar as aventuras da vida, o protagonista finge estar doente para matar aula junto de seu melhor amigo e namorada. Uma peripécia que o Antonio Prata criança certamente aprovaria.

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